segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

"O Dirce, ó o café"

VeVET
Quando criança, herdei de modo inesperado, um papagaio da minha avó materna.

Ele já era de idade, embora nunca soubéssemos exatamente a sua idade, pois, segundo minha mãe, a vovó chegou a ter outro papagaio, mas sem lembrança de datas.

No começo, foi muito complicada a nossa relação. Enquanto ele tentava me atacar, picar minha mão, eu tinha de fugir do bico dele, trocar água, girassol e o jornal da gaiola.

Com o passar do tempo, ele viu que me atacar não era uma atitude inteligente e permitiu que eu o afagasse, mexesse em suas penas e coçasse a cabeça, para, segundo ele, mexer no "piolho".

Apesar de papagaio, era discreto, de poucas palavras, mas muitas risadas.

Quando fugia da gaiola, somente eu podia pegá-lo.

Ele subia na minha mão, com as unhas afiadas, e a deixava toda marcada, de modo a parecer mão de velho, como dizia à época.

Passados alguns anos, mais de uns 20, meu amigão morreu.

Foi triste pegá-lo pela última vez, para enterrá-lo no jardim de casa, consolado por meu pai.

Hoje, ao falar dele e ter conhecimento de pessoas que, por um momento que seja, já viveu experiência parecida, abro um sorriso, sinto saudade.

Uma dessas histórias saborosas que soube, foi de um aluno da minha esposa.

Ela conta sobre uma parente próxima, de nome Dirce, que morava em um local arborizado, em que pássaros de todos os tipos passavam por lá.

O marido dela, que morreu, sempre a chamava: "O Dirce, ó o café!"

Um dia, o papagaio deles, com o bico, abriu a gaiola e foi ao encontro dos seus iguais.

A fidelidade animal, no entanto, é algo que ser humano algum será capaz de explicar um dia.

O papagaio fujão, ao invés de ficar e vivenciar seu habitat natural, longe da humanidade, sempre vai à casa de dona Dirce e a lembra: "O Dirce, ó o café!"

O café da dona Dirce é tão bom, que, pelo que o blog apurou, o papagaio fujão trás seus amigos e família para, literalmente, bicar o café dela.

Ah! E não adianta outra pessoa o atender!

Tem de ser a dona Dirce!

Se uma outra pessoa responder por ela, ele vira a cara e continua a chamar pela amiga.

Magnífico mundo animal!

Pena o ser humano não ser assim!

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